Brocas Vetus

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Será que se contaram as espingardas todas?

Publicado por Carlos (Brocas) em 25/06/2009

1Será da maior importância tentar perceber o que se passa na Autoeuropa. Rejeitado o recente acordo pré estabelecido entre a Comissão de Trabalhadores e a sua Administração pela mínima expressão de apenas 129 votos (1381 contra e 1252 a favor do acordo), importa de imediato perguntar aos trabalhadores que votaram contra se de facto pensaram nos trabalhadores contratados a prazo que proximamente serão despedidos com a recusa deste acordo, se “contaram as espingardas todas” ao decidirem de tal forma, ou se reflectiram no que será o seu futuro se quem tem todas as armas (a Administração) decidir utiliza-las em seu favor, aplicando o Lay Off com a respectiva redução do salário mensal líquido, equivalente até a um máximo de 25% em cada trabalhador. Eu compreendo, quem habituado a respeitar os princípios pela defesa dos direitos adquiridos e cumprir à letra a lógica (muitas vezes esquecida) da luta de classes, se veja agora confrontado com uma realidade que pode passar pela redução de alguns direitos para o qual alguém intencionalmente não lhes alertou para tal eventualidade, e deliberadamente continua a esconder dos trabalhadores da sua necessidade, tentando desta forma aproveitar-se politicamente do descontentamento que resultar do fracasso das negociações. É inquestionável, e apesar de todas as teses que nos querem fazer querer o contrário, a luta de classes continua sempre presente em todas as relações laborais, continuando os patrões a utilizar todas as estratégias para retirar cada vez mais dividendos (aproveitando-se da crise) apoderando-se da mais-valia resultante da exploração da mão-de-obra assalariada. Apesar de esta realidade conviver connosco diariamente, penso que os trabalhadores da Autoeuropa terão que ter em conta o momento presente, avaliar as consequências da rejeição de um acordo negocial e aproveitar a situação que lhes seja mais favorável, mesmo que momentaneamente não lhes pareça ser a mais aceitável. A salvaguarda dos postos de trabalho é no momento presente um bem a preservar (não necessariamente a todo o custo, pois nem tudo o que os trabalhadores nas fábricas da Alemanha já aceitaram poderá ser bitola para Portugal) mas que implica fazer uma avaliação daquilo que pensamos ser mais valioso no momento presente defender e sabermos “com que espingardas poderemos contar a nosso favor”. “Contadas as espingardas”, aos trabalhadores da Autoeuropa resta unicamente a seu favor um bem que é inquestionável, que são os princípios e os valores na defesa dos direitos que o movimento operário foi conquistando até aos nossos dias. Por outro lado, a sua Administração (a quem o mercantilismo se sobrepõe aos princípios dos trabalhadores) valendo-se do poder económico que detêm, tenta utilizar todas as armas que dispõe e, na ausência de qualquer acordo, ameaça com o despedimento de cerca de 250 trabalhadores contratados e a aplicação do Lay Off com as suas consequências de que os trabalhadores são bem conhecedores. É neste contexto que, em minha opinião deve prevalecer o bom senso, embora reconhecendo mais uma vez que é sempre o lado mais fraco que acaba por ceder. A luta de classes é um processo constante e alvo de contradições, muitas vezes objecto de negociações, de avanços ou de recuos momentâneos, para que os trabalhadores possam mais tarde proceder a uma avaliação da situação e recuperar o que foi perdido quando a correlação de forças não lhes era favorável. Esta é uma realidade histórica que não é desconhecida de quem neste momento aposta na radicalização do processo negocial na Autoeuropa, mas que, apesar de tudo (fingindo ignorar os manuais Leninistas de onde decoraram estes ensinamentos) tentam criar as condições para que não haja acordo entre os trabalhadores e a Administração, apostando no “quanto pior melhor” para mais facilmente explorarem o descontentamento dos trabalhadores e, como já vem sendo hábito, retirar daí dividendos políticos. Uma coisa é certa. Embora o acordo não seja o ideal, é sempre preferível os trabalhadores continuarem dentro da empresa mesmo com os seus direitos reduzidos e aí aguardarem por momentos mais favoráveis para os reconquistar, do que estarem fora dela (despedidos) protestando junto ao Governo Civil de Setúbal (quando já nada mais se pode fazer) com as tradicionais bandeiras negras previamente distribuídas por dirigentes sindicais, que logo desaparecem quando o protesto se dispersar e aquela realidade deixar de ser notícia de primeira página. É um cenário que infelizmente se tem repetido por todo o país, e é uma realidade bem dramática que muitos trabalhadores já viveram ao assistirem ao encerramento das fábricas onde trabalhavam, quando parecia ser evidente haver espaço para o diálogo que intencionalmente foi dificultado por alguns trabalhadores obcecados pela ideia de que negociar com o patrão é relegar a luta para segundo plano (como se as negociações não fossem também uma forma de luta) sendo atirados para o desemprego, devido à ganância e à chantagem das administrações mas também à irresponsabilidade de alguns dos representantes dos trabalhadores que, em obediência fiel às directrizes do seu partido, se alhearam intencionalmente da defesa dos direitos mais elementares dos trabalhadores pela defesa dos seus postos de trabalho, para privilegiarem a via da confrontação e da exploração do descontentamento que pensam ser a via que lhes dá mais votos. 2Penso que os trabalhadores da Autoeuropa e a sua Comissão de Trabalhadores saberão encontrar o caminho certo para ultrapassar mais esta dificuldade, e assinar um acordo que lhes permita minimizar as suas desvantagens mas salvaguardar sobretudo os seus postos de trabalho, respondendo desta forma (a exemplo dos acordos anteriores) aos profissionais da desgraça que do interior de sindicatos e de sedes partidárias (onde se refugiaram e hoje têm o seu futuro assegurado depois de também terem contribuído para o encerramento das empresas onde trabalhavam) apostam no fracasso das negociações, esperando como abutres a melhor oportunidade para se saciarem com o descontentamento que inevitavelmente irá provocar em trabalhadores que, depois de viverem uma relativa estabilidade no emprego se poderão confrontar a curto prazo com o espectro da deslocalização da empresa e irem engrossar as já extensas fileiras do exército de desempregados. “Saber que se vai entrar numa batalha já em desvantagem e sem primeiro ter contado as espingardas do inimigo” é um mero acto suicida que os trabalhadores da Autoeuropa decerto saberão evitar.

Carlos Vardasca 22 de Junho de 2009

Uma Resposta para “Será que se contaram as espingardas todas?”

  1. Proletário disse

    Pois bem alguns melros começam a cantar.

    Afinal para eles “os melros” ou melhor dito “os cucos” o problema foi os trabalhadores da Autoeuropa por maioria e em vezes sucessivas terem dito de forma clara, e mais grave terem decidido que não aceitavam a proposta de acordo que a Administração lhes queria impor.

    Proposta que se diga em abono á verdade, coincide no mesmo momento temporal em que os accionoistas da multinaciona dona da Autoeuropa aumentavam os dividendos que distribuiem pelas accções que são detentores, é pois claramente ilucidiativo que o objecto destes senhores é como sempre foi o para os dententores do capital o aumento dos seus lucros.

    No caso da Autoeuropa como em muitas outras empresas o que fazem é á boleia da crise cortar nos direitos dos trabalhadores para aumentar os seus lucros.

    Mas algo mais importa aqui dizer porque razão a empresa estando a sentir dificuldades não recorre ao PASA-Plano de Apoio ao Sector Automóvel, ou será que alguém se acredita que é por pudor que não querem usufruir de dinheiros e apoios públicos, ou será que já se esqueceram aqueles que atacam os trabalahadores que esta é daquelas empresas que têm sido muitissimo apoiada.

    Por fim é caso para perguntar aos apoiantes da imensa manobra de chantagem que está em curso de á alguns meses a esta parte que este argumento dos contratados a prazo não colhe, ele em nada difere daquele outro que dizia que se devia cortar nos direitos dos mais velhos para dar acesso ao mercado de trabalho aos mais novos, ou de um ainda mais antigo e que levou a criação dos contratos a prazo que se veio a transformar numa chaga.

    Será meus senhores que não se estão a esquecer de nada, é que aquilo que os trabalhadores recusaram, foi a retirada de direitos, não foi a manutenção da laboração com todos os trabalhadores que hoje laboram na empresa, sejam eles efectivos a prazo, ou até por conta de empresas de aluguer de mão de obra tenham elas a forma que tenham, e o nome que tiverem.

    Os trabalhadores são de facto, e na forma a força da nação

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